Cultura do RN

“Provocações Cinematográficas”: projeto traz acesso à cultura para estudantes e promove formação social através de debates e exibições de filmes

Por Matheus Henrique

O Brasil é um país de muita diversidade cultural. As artes, a música e o cinema são um grande patrimônio nacional. No entanto, o acesso à cultura ainda é restrito e as atividades culturais não fazem parte do cotidiano de grande parte da população. Por esse motivo, é importante que as produções artísticas se tornem cada vez mais acessíveis para que todos conheçam os trabalhos que percorrem o mundo e são pautas de diversos assuntos e discussões.

As obras cinematográficas, por exemplo, sempre vão de encontro a sociedade e ao que está acontecendo. Até obras mais antigas conseguem se manter atualizadas, dialogando diretamente com as pessoas independente do tempo e época – as chamadas obras atemporais. Elas sempre foram importantes na vida das pessoas e hoje em dia não seria diferente.

Atualmente, neste período de isolamento social, que já dura um ano aqui no Brasil, foi visto um grande aumento no consumo de filmes e séries, que se tornaram – ainda mais – grandes fontes de entretenimento. É cada vez mais comum ver pessoas assistindo algo, pedindo indicações e recomendando trabalhos que assistiram, mostrando a importância do audiovisual, principalmente como forma de prezar um pouco mais pela saúde mental, tão afetada pelas notícias da atual situação mundial.

Enxergando a importância do cinema, do acesso à películas para todos, e da necessidade do debate acerca dessas, o projeto de extensão Provocações Cinematográficas, promove cine-debates, a partir de exibição de filmes que abordam temáticas socioculturais atuais e pertinentes, bem como da ocorrência de um bate-papo sobre as obras audiovisuais e os temas que elas apresentam. No momento, devido ao cenário da pandemia e do período de quarentena, o projeto foi adaptado para que as atividades sejam realizadas no Instagram, no perfil @cineprovocacoes, onde acontecem recomendações de filmes, séries e documentários. O projeto conta com uma coordenação colaborativa onde é realizado um revezamento no comando das atividades da ação de extensão. Atualmente, o projeto está sendo coordenado pelo professor Rafael Borges Ribeiro dos Santos e conta com a colaboração de Maiara Juliana Gonçalves, Julianne Pereira dos Santos, Olga Carla Espinola, Anderson Dias Viana e Severino Gomes Neto, professoras e professores da Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ-UFRN). A ação ainda conta com a contribuição de Auana Câmara, estudante de audiovisual e bolsista do projeto.

Durante três vezes ao mês, há uma dinâmica onde duas das recomendações feitas para o público vão para uma votação, e a mais votada se torna pauta para um vídeo, a partir de uma análise crítica, que depois é postado no IGTV. Na semana que não há votação e nem gravação para o IGTV, acontece uma live com um convidado, e cada mês têm um convidado diferente. A live tem como intuito interagir virtualmente com os seguidores e participantes do projeto no Instagram, debatendo sobre um determinado tema.

A ação também tem como objetivo trazer à reflexão assuntos importantes para a sociedade contemporânea, explorando a linguagem significativa, atraente e expressiva do cinema, além de contribuir com a formação social, cultural, ética e cidadã dos participantes. Isso por meio de um projeto interdisciplinar, por envolver professores e estabelecer relações com diversas áreas do conhecimento, a partir de múltiplas perspectivas.

O projeto foi pensado em 2017 por um grupo de professores da EAJ-UFRN das áreas técnicas de informática, ciências humanas e linguagens como evento realizado dentro da Semana de Ciências Agrárias (SEMAGRÁRIA) da EAJ-UFRN. “Na ocasião, o grupo de professores e de discentes elegeram quatro filmes que foram exibidos em quatro sessões de cinema nos dias 05 e 06 de outubro. Após as exibições, os docentes e discentes envolvidos orientaram o debate sobre variados temas abordados. Diante do êxito conquistado pelo evento, transformamos o acontecimento pontual em um projeto de extensão a fim de ser desenvolvido ao longo do ano de 2018 na instituição”, explica o coordenador.

O professor fala também acerca da importância do projeto mencionando as temáticas atuais que ele aborda, o acesso aos trabalhos audiovisuais que promovem aprendizagem, e o que ele proporciona nesse momento de isolamento social. “O projeto mostra relevância ao agregar valores, vivências e reflexões comuns a diversas disciplinas do currículo, possibilitando um espaço de discussão permanente para muito além dos muros da instituição, corroborando na promoção e maior democratização do conhecimento em nossa sociedade. A atualidade do projeto também é notória, uma vez que as temáticas trabalhadas a partir dos filmes estão em pauta na sociedade contemporânea, como cultura, identidade, preconceitos, entre outros. Além disso, a necessidade de acesso ao cinema como ferramenta cultural se tornou ainda mais evidente no contexto da pandemia, como meio de ócio, mas também de aprendizagem, de equilíbrio e manutenção da saúde mental, como nos relataram alguns participantes do projeto ao longo da sua edição em 2020”, comenta Rafael.

O projeto, quando realizado presencialmente, fazia a exibição de filmes, séries e documentários na EAJ-UFRN, a partir de temas socialmente relevantes, tendo como público alunos e membros da comunidade externa, e em seguida, era realizada uma roda de conversa onde acontecia um debate sobre as películas e os temas relacionados a elas. Agora, com a pandemia, a ação de extensão teve que se adaptar às limitações desse período. “Inicialmente, começamos a pensar possibilidades e novos formatos para o projeto, pela impossibilidade de realizar encontros e a dificuldade de desenvolver exibições. Nesse sentido, o Instagram se mostrou uma plataforma viável, pelo fácil acesso que a maioria do público têm, além da possibilidade de ampliar o nosso alcance, de um projeto local a nível nacional”, diz o professor.

As exibições são escolhidas de acordo com o que está mais acessível ao público, como conteúdos que estejam nas plataformas do YouTube e Netflix, ambas bastante populares atualmente. Segundo Rafael, a escolha das obras a serem assistidas têm diversos objetivos. “Os filmes escolhidos são muito ecléticos, desde filmes que estão em alta, como estratégia para atrair o público, até clássicos antigos, esquecidos ou que passaram despercebidos pelo público. A proposta é analisar o filme para além do senso comum, de modo a melhor entender as relações sociais e nós mesmos no contexto dessa sociedade, sendo assim, escolhemos filmes que trazem problemáticas sociais, inclusive muitas das quais não percebemos facilmente pelo fato de naturalizarmos, como a nossa relação com o tempo ou com aquilo que julgamos ser diferente. A escolha e a proposta dos temas é motivar reflexões, promover questionamentos, levar o público a sair de sua zona de conforto e ir além do senso comum”, comenta.

Os debates realizados pelo projeto funcionam assim: no formato presencial, os discentes conduzem o debate, de modo que todos os envolvidos tenham voz e espaço de fala, caso desejem. A partir das cenas e dos temas que o próprio público levanta, os quais são feitos previamente um mapeamento identificando possibilidades, os participantes vão, em forma de roda de bate-papo, aprofundando o diálogo. Já no formato online, modelo atual de realização do projeto, durante as lives, o público pode fazer comentários e perguntas que motivam o diálogo entre o professor permanente no projeto e o convidado, especialista do tema que está sendo discutido. “Por exemplo, um filme que trata sobre xenofobia e migração, convidamos um especialista/pesquisador nesse tema. Já os vídeos no IGTV ficam disponíveis e o público pode assistir e realizar comentários, compartilhar suas experiências e posicionamentos em relação ao vídeo, ao tema e à película tratada”, explica o professor. Atualmente, o projeto já conta com a parceria de professores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Túlio Araújo, ex-aluno da EAJ-UFRN, já participou do Provocações Cinematográficas e fala da importância da ação de extensão e compartilha as experiências no projeto. “A importância do projeto se refere à formação de julgamentos, olhares e posicionamentos acerca do mundo. Bem sabe-se que os filmes carregam consigo histórias verossimilhantes, são enredos baseados nas vivências e comportamentos culturais do homem, isto é, cada narrativa cinematográfica implica uma reflexão social. Logo, os alunos e alunas participantes foram convidados a refletir sobre o mundo que lhes rodeiam. E se faz necessário destacar o ponto chave do projeto: a formação de mentes críticas e de pensamentos inconformados”, comenta. “De maneira geral, participar do projeto foi uma experiência enriquecedora, tanto intelectualmente, quanto emocionalmente. Propondo um plano emocional, pois os professores sempre incitaram sobre os participantes um acolhimento imenso, no que diz respeito a abrir um espaço de compartilhamento de opiniões e críticas. Não apenas isso, mas o que agravou o meu interesse foi o fato da formação analítica sobre os processos sociais, midiáticos e políticas num meio informal do cotidiano: os filmes. Afinal, em que outro local eu seria convidado a julgar ações e atitudes fictícias?” acrescenta e indaga.

O projeto de extensão trouxe para o jovem a formação do senso crítico e posicionamento ideológico. “Toda a minha história na EAJ diz respeito à criação de um posicionamento ideológico, trazendo o significado concreto do termo: plano das ideias. O Provocações Cinematográficas foi um dos intermédios para a minha inserção política no contexto social e se tratou de um horário voltado para pensar e repensar as atitudes humanas em conformidade com a modernidade”, explica. Além disso, Túlio fala da contribuição que as atividades da ação de extensão têm para o seu atual curso de graduação. “Atualmente estou inserido no curso de Letras – Língua Portuguesa (Licenciatura) pela UFRN, e posso dizer com convicção que esse projeto mudou completamente a minha forma de interpretar o mundo. Os exemplos dos professores e coordenadores em promover um debate acerca de um suporte tão simples, que é experienciado em grande escala pelos alunos, com certeza será motivo de minhas futuras aulas. A forma como acarretaram a estimulação para a sensibilidade dos indivíduos em ressignificar as práticas sociais, será, num futuro breve, motivo de aplicação da mesma prática pedagógica com fins equivalentes. Se tornou, acima de tudo, uma inspiração para as mentes jovens!”, comenta com entusiasmo.

O estudante finaliza comentando que a visão acerca das obras audiovisuais mudou bastante desde sua participação no projeto, que fez com que ele observasse diversos aspectos com um olhar mais crítico e reflexivo. “A minha visão já não é mais a mesma, passei a rever os filmes como uma prática de transparecer os problemas e as ironias do contexto humano. Afinal, todas as configurações, escolhas de cores, escolhas linguísticas, escolhas dos espaços, construção dos personagens, entre outras coisas, são pontos a serem examinados e interpretados, a fim de se compreender o mundo, agora, com novos olhos: os olhos da reflexão”.

O professor e responsável pela coordenação também reforça o que o Provocações vem realizando ao longo dos anos e o que ele proporciona para os estudantes que já estiveram no projeto e os que participam atualmente. “Desde 2017 temos desenvolvido esse projeto, realizando várias exibições cinematográficas não só no contexto da EAJ, mas também em outros ambientes, como em 2019, em que uma das sessões aconteceu na cidade de Natal, com um público satisfatório. Atualmente, em seu formato online via Instagram, esse público tem sido ampliado. Como já foi relatado pelos alunos, o projeto permitiu acesso a produções cinematográficas, bem como o desenvolvimento de um olhar mais crítico sobre as películas e a própria sociedade”, comenta. Ele ainda fala acerca da importância do projeto nesse período atual e o aprendizado para todos os envolvidos: “No contexto da pandemia houve relatos de como o cinema se tornou um meio de ócio, de manutenção da saúde mental e de tornar o confinamento mais suportável. O aprendizado é grande também da nossa parte, enquanto docentes, uma vez que os debates e o seu caráter interdisciplinar e dinâmico servem como meio de compartilhar conhecimentos e vivências, rever nossos posicionamentos, repensar estratégias, coletivamente, na resolução dos problemas levantados, ou seja, é momento de fala, mas também de escuta, de divergências, mas também de empatia com o outro, e com a história e o olhar que compartilha”, finaliza.

Ao longo da realização do projeto, houve debate acerca de filmes clássicos e obras mais recentes: Parasita, Ela, Um Sonho de Liberdade, Feitiço no Tempo, Whiplash, Um Dia de Fúria e V de Vingança são alguns dos trabalhos discutidos. Dentre as indicações, estão os filmes Lady Bird, Psicoce, A Cor Púrpura, PK e obras nacionais premiadas como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho.

Um dos grandes resultados significativos em mais de três anos de realização do projeto foi a acessibilidade cultural que ele trouxe para diversos jovens. As indicações de filmes, séries e documentários disponíveis nas plataformas mais populares, e as exibições abertas ao público na escola e nos espaços dão aos participantes do projeto a possibilidade de conhecer mais obras. Além disso, os faz pensar e debater sobre cada uma delas, e refletir temáticas sociais que fazem parte do cotidiano de todos. E a expectativa dos envolvidos no Provocações Cinematográficas é dar continuidade ao projeto para que ele proporcione ainda mais discussões, reflexões e acesso à cultura, e ampliar ainda mais o projeto.

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