Cultura do RN

Museu Lasar Segall (SP) apresenta exposição online do artista macaibense Rossini Perez; exibição será a partir de 17 de março

Rossini Quintas Perez, nascido em 1931, em Macaíba (RN), viveu em reclusão até os sete anos de idade devido à sua enfermidade respiratória. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942.

Museu Lasar Segall apresenta exposição online de Rossini Perez a partir de 17 de março, exibindo ao público o acervo pouco conhecido deste artista brasileiro falecido há um ano.

Com curadoria de Sabrina Moura, a retrospectiva Arqueologia da Criação: Uma imersão no acervo-ateliê de Rossini Perez convida o visitante a percorrer galerias virtuais, descobrindo as múltiplas facetas do artista na colagem, fotografia e gravura e suas vivências pela América Latina, África e Europa

 Em março de 2020, o artista Rossini Perez faleceu, aos 89 anos, de uma infecção pulmonar crônica que o acompanhava desde a infância. Em meio ao início da pandemia de Covid-19 no Brasil, sua despedida foi silenciosa e compartilhada apenas entre familiares e amigos mais próximos.

Um ano depois, o Museu Lasar Segall revela a grandeza e a pluralidade de sua obra, conhecida essencialmente pela gravura, na exposição Arqueologia da Criação: Uma imersão no acervo-ateliê de Rossini Perez. Realizada em formato totalmente online, a retrospectiva poderá ser acessada de 17 de março a 01 de julho de 2021 no www.arqueologiadacriacao.org.

Premiada com o edital de exposições de artes do PROAC (Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), a mostra é o resultado de um intenso trabalho de pesquisa e de convivência com o artista iniciado em 2017 por Sabrina Moura.

“Eu estava estudando a arte senegalesa dos anos 1970 quando descobri que Rossini ajudou a implantar uma oficina de gravura na Escola Nacional de Belas Artes de Dacar naquela época. Na primeira vez em que visitei seu ateliê, queria conhecer as histórias de sua passagem pelo país africano. Mas ele fez questão de me mostrar as colagens que vinha fazendo. Nos encontros seguintes, apresentou outros trabalhos e materiais que guardava em seu acervo. Quando percebi, já tinha sido pega pela armadilha que é o labirinto da memória e da produção artística de Rossini”, diz a curadora.

A primeira individual de Rossini Perez a olhar para a totalidade do seu acervo será apresentada como galerias virtuais, por onde o público poderá percorrer, descobrindo as diferentes facetas do artista, com destaque para a colagem e a fotografia, além da gravura. “Decidimos nos apropriar do espaço online propondo percursos imersivos, com áudios, vídeos e imagens, para que o visitante se sinta próximo ao artista, como se estivesse manipulando as gavetas de seu ateliê”, conta Sabrina Moura.

De seu fascínio pelo canto lírico de Bidu Sayão às suas incursões pelos mercados senegaleses e o deserto do Saara, a mostra aborda a atenção do artista ao detalhe das formas, incorporadas com maestria em seus trabalhos.

“A obra de Rossini Perez tem um valor notável para as instituições, que têm buscado rever seus acervos e coleções, pois coloca em xeque a própria ideia de uma modernidade central”, afirma Sabrina Moura. “E, nesse aspecto, sua experiência como professor de gravura é exemplar. Do Rio à Lima, de Dacar ao México, o artista guardava seus registros como um arquivista. Tudo era minuciosamente identificado e ordenado. Essa espécie de ‘febre arquivística’ levanta, aliás, um debate crucial sobre os acervos brasileiros, num momento em que nossos espaços de memória têm sido fragilizados”, diz a curadora.

Consciente do seu legado, Rossini Perez realizou, alguns anos antes de falecer, uma série de doações para diversas instituições, como o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o Museu de Arte do Rio (MAR) a Pinacoteca do Estado de São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade, entre outros.

A exposição é acompanhada por uma programação gratuita e online, voltada a adultos e crianças. Sob a forma de debates, laboratórios, visitas guiadas e web-séries, as atividades expandem os entendimentos acerca da obra de Rossini Perez, bem como, discutem o valor de acervos pessoais para a arte brasileira.

SOBRE O ARTISTA

Rossini Quintas Perez, nascido em 1931, na pequena cidade de Macaíba (Rio Grande do Norte), viveu em reclusão até os sete anos de idade devido à sua enfermidade respiratória. Após mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1942, Rossini Perez testemunhou importantes acontecimentos da cena artística da então capital federal. Em 1951, frequentou a Associação Brasileira de Desenho e tem aulas com o pintor Ado Malagoli (1906-1994). Percorreu a Bienal de São Paulo, e se impressionou com as gravuras do expressionista Edvard Munch (1863-1944), decidindo se dedicar a essa técnica. Por volta de 1952, é aluno de Iberê Camargo (1914-1994) e, em 1953, de Fayga Ostrower (1920-2001). No mesmo ano, participa da 1º Exposição Nacional de Arte Abstrata, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ). A partir dos anos 1960, mudou-se para Paris onde conviveu com a vanguarda dos artistas brasileiros sediados na França. Entre eles, Lygia Clark (1920-1988), Arthur Luiz Piza (1928-2017), Sérgio Camargo, Antônio Bandeira (1922-1967), Frans Krajcberg (1921-2017). Entre os anos 1970 e 1990, o artista esteve em Portugal, Senegal, México, entre outros países, realizando exposições e montando oficinas de gravura. De volta ao Brasil, foi professor no Centro de Criatividade da Fundação Cultural do Distrito Federal, em Brasília, em 1978, e no Ateliê de Gravura do MAM/RJ, de 1983 a 1986. Em meio a essas circulações, Rossini Perez acumulou um precioso conjunto de materiais que arquivou em seu ateliê e morada, localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro, cidade onde faleceu em 2020.

 

SOBRE A CURADORA

Sabrina Moura (Natal, 1979) é curadora, pesquisadora e escritora. Em 2019, foi curadora da mostra “Nome Próprio”, no Centro de Artes Municipal Hélio Oiticica (Rio de Janeiro), no quadro do programa Coincidências, da fundação suíça Pro Helvetia. Concebeu e organizou seminários e programas públicos apresentados por várias instituições, incluindo a Associação Cultural Videobrasil, SESC São Paulo, Goethe Institut, e Fórum Bienal Mundial, São Paulo. Foi pesquisadora visitante no Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Columbia, Nova Iorque, com uma bolsa da Fundação Getty, Los Angeles (2016).  Editou o livro Panoramas do Sul: perspectivas para outras geografias do pensamento (SESC Videobrasil, 2015), que apresenta contribuições culturais e artísticas sobre o conceito do Sul Global. É doutora em História da Arte pela Unicamp, e possui Mestrados em História e Estética da Universidade Paris VIII (2011) e em Gestão e Condução de Projetos Culturais da Universidade Paris III Sorbonne Nouvelle (2010). Atualmente, está finalizando um livro sobre as relações entre arte e políticas da identidade na produção artística contemporânea

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