Opinião

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com um “causo” do querido RN.

Salgar meu pai

Conto uma historinha do Rio Grande do Norte, mais precisamente de Macaíba, vizinha à capital, Natal.

Em certa administração municipal, constituída em sua grande maioria por pessoas de Natal, um pobre rapaz procurou o gabinete do prefeito com um problema urgente. Era uma sexta-feira.

– Meu pai morreu e vim pedir o caixão, suplicou o jovem à secretária natalense da mais fina flor da moderna burocracia.- Hoje não há como atender. O prefeito e todo o pessoal foram a Natal. Volte segunda-feira, está bem? respondeu a funcionária conscientíssima do dever cumprido. Desolado o rapaz recuou e abriu novamente a porta do gabinete para nova abordagem:

– Dona, poderia me arranjar dois reais?

– Pra quê você quer o dinheiro?, interrogou a eficiente servidora.

– É pra comprar sal grosso, salgar o meu pai até segunda-feira!

(Quem conta o “causo” é Valério Mesquita).

Panorama

Aguçando a vista, dá para sentir que o panorama é ainda sombrio. Avoluma-se a confiança social de que o pior já passou, sentimento que corre na esteira do discurso dos governantes sobre a retomada da vida cotidiana. Mas não é bem assim. As expectativas superam as certezas. A vacina tão proclamada pode ser anunciada a qualquer momento, porém sem a certeza de que será tiro e queda, tomou, curou. Haverá muita desconfiança. A política começa a engatilhar suas armas. As aglomerações tomam as praias. A dura realidade vai apresentar sua fatura mais adiante.

Witzel, a ambição

Esse governador (ou ex?) do Rio de Janeiro é do tipo pavão. Aprecia a espetacularização da política. Governador que toma posse não veste faixa. Só o presidente da República. Mas ele mandou fazer uma faixa azul. E se pavoneou. Um dândi. Ex-juiz, esperava-se dele a retidão de uma régua. Explodiram denúncias. Negócios nas áreas da saúde, intermediação de serviços para o escritório da mulher advogada. Tudo ainda no campo das suspeições. A Assembleia foi autorizada a continuar com o processo de impeachment. Difícil que ele volte. A ambição desmesurada destrói o perfil.

Exemplo

Esse caso de Witzel pode ser a bússola para orientação dos governantes. Uma decisão monocrática o afastou. Mas o ministro do STJ, Benedito Gonçalves, tende a ser seguido no voto em plenário. O Brasil, de maneira lenta e gradual, vai caminhando na direção da coisa direita. Restringem-se, a olhos vistos, os espaços de tramoias. A Justiça ajusta o pedal. O Brasil vai devagarinho arrumando sua baderna.

Vaga no STF

O fato é que desembargadores, ministros, juízes de alto coturno estão fazendo das tripas coração para tentar a vaga de Celso de Mello, o decano do STF, que se aposenta em novembro. Haja ambição.

Guedes com ou sem fritura?

Voz comum na análise política é a de que Paulo Guedes está sendo frito. Não vejo assim. O fato de ter seu plano Renda Brasil rejeitado pelo presidente pode ter sido até um puxãozinho de orelha. Não uma fritura. Bolsonaro gosta de Guedes. E fritura só se faz quando o ministro, seja quem for, já não faz parte da roda de amizades e admiração do presidente. PG poderá ir longe. Mas, como em política, tudo pode ocorrer, não ponho a mão sob a foice.

Fake Dino

Mais fake news. Um descalabro o que fizeram com o governador Flávio Dino, do Maranhão. Inventaram que Dino compareceu ao velório do pai sem máscara e nenhuma proteção contra a pandemia. O pai morreu de covid-19, não houve velório e foi enterrado com a presença de poucos familiares. Quanto embuste. Quanta maldade.

Fakes diárias contra Doria

O governador de São Paulo é o maior alvo de fake news no Brasil. Praticamente, um exército de contrabandistas da informação inventa diariamente uma notícia falsa sobre o governo de São Paulo. João Doria desperta ciúmes: transparente, administra bem a crise da pandemia, fala todos os dias apresentando dados sobre a covid-19 e isso incomoda os grupos mercenários. Este analista político sugere que o governador mande apurar onde estão as fontes falsas. A última diz respeito à mudança do calendário histórico e tradicional, entre a.C e d.C. Antes de Cristo e Depois de Cristo. Pois os embusteiros dizem que o governo mudou isso. Que caras de pau. Pau neles.

A eleição municipal

Teremos uma eleição menos espalhafatosa. A sola do sapato, neste pleito, será mais importante que santinho, cartaz, brindes. O eleitor desconfia até das melhores intenções. E não adianta o candidato garantir em cartório o cumprimento de seu programa de governo. Vai ter muito candidato fazendo isso. O eleitor quer olhar para o candidato e tentar ver nele um signo de confiança. Apesar da tendência crescente do populismo caboclo.

Rombo

O rombo no Tesouro para o próximo ano será de cerca de R$ 1 trilhão. O Ministério da Defesa aumentará seu orçamento. Outros, como Cidadania e Infraestrutura, terão diminuídos seus orçamentos. É o Brasil armado.

Quatro vezes mais benefícios

O governo Federal quadruplicou o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social e que recebem algum benefício, informa o portal Poder360, um ótimo espaço de informação, sob direção de Fernando Rodrigues, com dados do Portal da Transparência. De 20,57 milhões no ano passado para 85,29 milhões este ano. Do levantamento fazem parte pessoas que recebem o auxílio emergencial (a maior fatia), o Bolsa Família, o BPC (Benefício de Prestação Continuada), o Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) e o Seguro-Defeso. Em 2019, eram assistidas por algum desses benefícios 10,8% da população brasileira. A proporção passou para 44,8% neste ano.

Muita ajuda, pouco emprego

Quase a totalidade dessa alta está relacionada ao auxílio emergencial: são 65,2 milhões de beneficiados, o que supera o número de trabalhadores com carteira assinada em 25 Estados. Além disso, segundo o portal, o número de beneficiários do Bolsa Família é maior que a quantidade de empregos formais em 10 Estados. Os dados revelam grande dependência da população por auxílios do governo Federal. O desembolso da União com os programas de assistência disparou de R$ 97,96 bilhões em 2019 para R$ 162,35 bilhões em 2020 até agora.

Um país de desempregados

E aumento de gastos se dá num momento em que o governo estuda a criação do Renda Brasil, que pretende englobar o Bolsa Família e outros seguros assistenciais. Só para lembrar: o Brasil tem hoje quase 13 milhões de desempregados, fora os desalentados e informais. E as maiores vítimas são os jovens: a taxa de desemprego entre 18 e 24 anos subiu a 29,7% no segundo trimestre. O governo tem se dedicado muito aos benefícios, mas pouco se fala de novos empregos no mercado de trabalho.

O nosso populismo

Promessas de abrir os cofres e mostrar que todo o dinheiro sumiu; prometer muito mais que poderá realizar; vestir as cores do novo, uma espécie de São Jorge contra o Dragão da Maldade; aparecer em fotos de família, no centro da cena, ele que passou tempos sem comparecer às regiões mais longínquas das comunidades; pegar crianças no colo, cantar músicas com grupos, bolar temas demagógicos e versos capengas de cordel; e até comprar cestas básicas para distribuir no final da campanha. Resquícios do passado que teimam em aparecer no populismo do presente.

O quê, como e para quem dizer

Pequena gramática para os candidatos

1. Escolha a melhor forma de dizer as coisas

2. O momento certo

3. O lugar certo

4. O receptor adequado (audiência adequada)

5. A repetição

6. A expressão corporal

7. Palco, tensão, símbolos

8. Usar a criatividade

9. Evitar excesso de palavras

10. Usar a expressão positiva em vez da forma negativa

Excitação das massas

No passado, os estudiosos das massas pesquisavam profundamente os comportamentos das multidões para nelas internalizar o populismo. Geralmente, o roteiro era esse, como descreve Sergei Tchakhotine em Mistificação das Massas pela Propaganda Política:

1. “Usar música, alto-falantes, pick-up, distrair os ouvintes, enquanto se aglomeram antes da reunião, tocando, sobretudo, canções que exaltem a bravura popular.

2. Manter a agitação e o dinamismo do auditório num crescendo até o fim da reunião.

3. De tempo em tempo, entabolar um diálogo entre o orador ou um locutor e a massa na sala, fazendo-lhe perguntas e provocando respostas coletivas: “Sim” ou “Não” etc. Uma afirmação maciça desse tipo atua sobre a massa como um choque elétrico, estimulando seu ardor.

4. Alternar cantos antes e após os discursos dos oradores (cantar sempre em pé, nunca sentados!).

5. Os discursos não devem jamais exceder de 30 minutos.

6. Sair da reunião cantando um hino combativo popular.

7. Se possível, apresentar um pequeno sketch divertido ou um coro falado, um coral, ou fazer declamar versos apropriados à reunião.

8. Um quadro vivo simbólico ou um cartaz luminoso de caráter dinâmico e alegre ou sarcástico, acompanhados de música, pode ser útil para descanso dos nervos.

9. Incitar a massa de ouvintes a fazer, de tempo em tempo, a “ginástica revolucionária”: proferir o gritos de mobilização, levantando, ao mesmo tempo, os punhos.

10. Decorar a sala de slogans e símbolos, em faixas, estandartes, bandeiras, folhagem etc.; colocar na sala um serviço de orientação, composto de jovens militantes, uniformizados e trazendo braçadeiras com emblema”.
Será que nos livramos desse engodo?

Memória: opinião pública

O termo “opinião pública”, com o significado de participação popular nas coisas de interesse público, apareceu com Jean-Jacques Rousseau, na metade do século XVIII, quando o autor de O Contrato Social escreveu que a vontade do povo é a única origem da soberania e das leis. Em igual direção e na mesma época, dizia David Hume, em seu célebre Ensaio sobre o Entendimento Humano, que a soberania da opinião pública, longe de ser uma aspiração utópica, é o que pesa e pesará sempre, em todas as horas, nas sociedades humanas. Com a crescente penetração da filosofia democrática, no século XIX, a expressão “opinião pública” começou a ganhar significado, desde a ideia romântica de Napoleão Bonaparte de que “a opinião pública é uma potência invisível”.

Walter Lippmann

O maior clássico sobre Opinião Pública foi escrito pelo jornalista norte-americano Walter Lippmann, onde rechaça a ideia de que a opinião pública é produto da opinião expressa livremente pelos cidadãos. Segundo sua teoria, a opinião pública é produto de gerenciamentos. Diante disto, ele defende que os especialistas (ou intelectuais) se encarreguem de serem os “timoneiros” da opinião pública, administrando as imagens que constroem o pseudo ambiente.

Opinião publicada

Geralmente os políticos brasileiros tendem a rejeitar críticas ancoradas na opinião pública, reagindo de forma contundente: “não se trata de opinião pública, mas de opinião publicada”. A seguir, bombardeiam meios de comunicação que levantam suspeições de corrupção contra parlamentares e governantes.

E fecho a coluna com o Ceará.

Que mundo doido…

É o diabo, o mundo endoidou! Exclamava Maneco Faustino nas ruas de Limoeiro/CE. E completava:

– Veja vosmicê: ta se vendo estrela a mei dia; já hai galinha com chifre; cangaceiro dá esmola pra fazer igreja; já apareceu bode que dá leite; chove no Ceará em agosto. Muié já se senta em cadeira de barbeiro.

Pedro Malagueta confirmava:

– Tá mesmo, cumpade, o mundo endoidou. Tenho três filha, duas casada e uma solteira: as duas casada nunca tiveram menino; agora a solteira todos os ano me dá um neto…

 

 

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