Opinião

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com duas historinhas: uma, da Bahia de Otávio Mangabeira, outra de Jânio Quadros. O professor Nelson Valente, quem mais conhece a história de JQ, tem um grande repertório de casos e “causos”. E livros.

Vieram e não me encontraram

Otávio Mangabeira foi governador da Bahia, ministro de Relações Exteriores e um sábio da velha política. Tinha um amor todo especial à língua. E cuidava do português a todo preço. Chega uma comissão de professoras ao palácio, Mangabeira as recebe no salão.

– Governador, nós viemos aqui conversar com V. Excelência sobre a situação do ensino na Bahia. (Deviam, claro, ter dito “vimos”, que é o presente. “Viemos” é o passado.).

Mangabeira respondeu apenas:

– Que pena, senhoras professoras, vieram e não me encontraram. E voltou para o gabinete.

Adão

O agricultor Antenor Vieira Borges, residente em Santa Catarina e que mandou ao presidente Jânio Quadros uma maçã de 850 gramas, colhida em sua plantação, recebeu o seguinte bilhete do presidente da República:

“Prezado Antenor: Abraços. Recebi a maçã de 850 gramas, que você enviou, produto da técnica e das terras catarinenses. Um colosso! Não há Adão que resista a essa fruta”.

Ânimo e desânimo

O ânimo perde para o desânimo nesse estágio em que estamos. A pandemia está começando a tirar os mais jovens das casas, o que gera maior propensão à contaminação. O clima de irritação se soma a uma atitude “seja o que Deus quiser”, um certo conformismo com a situação. A angústia reluta em ir embora. E os números surpreendentes que lotam os cemitérios vão se tornando coisas banais.

Mais afetados

Registro mensagem que recebi. Os países mais afetados pela Covid-19 são Estados Unidos, Brasil, Rússia, Índia, Espanha, Reino Unido, Itália e França. Comandados por Donald Trump, Jair Bolsonaro, Vladimir Putin, Narendra Modi, Pedro Sanchez, Boris Johnson, Giuseppe Conte e Emmanuel Macron.

Mulheres: melhores

Já os países que melhor administram a pandemia são: Alemanha, Taiwan, Nova Zelândia, Islândia, Finlândia, Noruega e Dinamarca. Sob a gestão de Angela Merkel, Tsai Ing-wen, Jacinda Ardern, Sanna Marin, Erna Solberg e Helle Thorning-Schmidt.

Imagem do Brasil

Nunca o Brasil teve imagem tão ruim no concerto das Nações como neste momento. E o governo, a partir do presidente, não tem dado nenhum sinal de preocupação. O chanceler Ernesto Araújo mostra-se incapaz de acompanhar a diplomacia internacional. Faz do Ministério das Relações Exteriores um ambiente hostil aos diplomatas que não comungam com seu credo ultraconservador. Desprezando o tabuleiro da diplomacia internacional, ameaça jogar o Brasil para fora do jogo das Nações.

Haia

A denúncia contra o presidente no Tribunal Internacional de Haia não mereceu de Bolsonaro nenhuma palavra. Seus assessores julgam a questão como coisa menor, insignificante. Terrível: quem passa por aquela Corte são os piores ditadores do planeta, alguns considerados genocidas.

Guedes perde gente

O ministro Paulo Guedes perdeu mais um quadro de sua equipe: Caio Megale, da Secretaria Econômica. Já perdera Mansueto de Almeida, do Tesouro, e Marcos Troyjo, do Comércio Exterior. E quem está saindo também é o presidente do BB, Rubem Novaes. Diz Guedes que está elevando ainda mais o nível de sua equipe. Conversa mole pra boi dormir. Impressão é que a turma que deixa o governo, o faz não apenas por questão de salário. A taxa média de felicidade no governo Bolsonaro deve ser abaixo de 5.

Recursos para a campanha

A campanha municipal deste ano será uma das mais baratas e modestas que o país terá. Municípios quebrados, cofres vazios, saúde devastada com estabelecimentos hospitalares sem equipamentos, pandemia provocando retração do eleitorado, eleitor mais consciente e exigente, candidatos sem os dribles verbais do passado – essa será a paisagem de novembro.

Grandes, médios e pequenos

Teremos uma campanha centrada em nomes e não em partidos. Grandes e médios partidos poderão se surpreender com o desprezo que o eleitor tende a demonstrar na campanha. As aglomerações serão poucas, o temor da pandemia esvaziará comícios. O que ouviremos será forte buzinaço, com eleitores dentro de carros sentindo-se seguros contra o novo coronavírus.

Marcos da Costa

O advogado Marcos da Costa, que comandou a OAB/SP por dois mandatos, deverá ser o candidato do PTB à prefeitura de São Paulo. Marcos está à frente de um bom programa de debates – “Conversa entre Amigos” – onde recebe políticos, empresários, advogados e quadros da comunicação para debater questões nacionais. É reconhecido como um grande gestor.

Bruno Covas

Quem será o vice na chapa de Bruno Covas? Pensam em Marta Suplicy, que tem boa imagem nas margens. Mas as pressões são intensas. Mulher terá boa votação esse ano. Basta ver o número de mulheres a disputar as prefeituras de capitais. Mais de 10. Chapa pura só de tucanos não seria boa coisa. O tucanato está em queda.

As margens seguram

Muita gente intrigada com a performance de Jair Bolsonaro na faixa dos 30% de aprovação do governo. Explicação plausível: o auxílio emergencial de R$ 600,00. O Nordeste, onde o presidente teve votação mais baixa, aplaude o auxílio. Esse programa deve se tornar o símbolo social do governo. Chama-se Renda Brasil e substituirá o Bolsa Família. Cada governante com seu bornal a tiracolo. Lembrem-se de minha repetida equação: BO+BA+CO+CA=Bolso Cheio, Barriga Satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça decidindo votar no patrono do bolso.

Guedes liberal

E o Paulo Guedes com sua bandeira liberal, hein? Era a coluna vertebral do governo Bolsonaro. Um amplo programa de privatização que previa a privatização de cerca de 600 empreendimentos governamentais. Até o BB estava nessa. Mas aí chegou para nos visitar o Senhor Imponderável dos Infernos, com a capa da morte que cobre os cemitérios do planeta. Pior, esse senhor, de nome Covid-19 não tem pressa para ir embora. Vai aumentar o seu círculo de mortos e contaminados por um longo tempo.

Centrão se quebra

O Centrão, que reúne em torno de 250 deputados, começa a afinar com a saída do bloco do MDB e do DEM. O Bloco é liderado pelo deputado Arthur Lira, do PP de Alagoas, que também age como líder informal de Bolsonaro. Lira sonha em presidir a Câmara, mas, ao que sabe, não combinou com os russos, no caso o poderoso comandante da Câmara, Rodrigo Maia. Quando se pensa que Rodrigo perde força, eis que demonstra vigor. Trata-se do mais forte articulador do Congresso Nacional.

Planejamento de campanhas

Este consultor, ancorado em sua vivência, chama a atenção para o planejamento do marketing das campanhas, que abriga estas metas: 1) priorizar questões regionalizadas, localizadas, na esteira de um bairro a bairro, ou seja, fazer a micropolítica; 2) procurar cria um diferencial de imagem, elemento que será a espinha dorsal da candidatura, facilmente captável pelo sistema cognitivo do eleitor; 3) desenvolver uma agenda que seja capaz de proporcionar “onipresença” ao candidato (presença em todos os locais); 4) organizar uma agenda contemplando as áreas de maior densidade e, concentricamente, chegando às áreas de menor densidade eleitoral; 5) entender que eventos menores e multiplicados são mais decisivos que eventos gigantescos e escassos; ante a pandemia, aglomerações e concentrações serão evitadas; 6) atentar para despojamento, simplicidade, agilidade, foco para o essencial, mobilidade, propostas fáceis de compreensão e factíveis. Esse um resumido escopo de planejamento.

Marketing : os 5 eixos

Resgato, aqui, os cinco eixos do marketing eleitoral: pesquisa, formação do discurso (propostas), comunicação (bateria de meios impressos – jornalísticos e publicitários – e eletrônicos (redes sociais), articulação política e social e mobilização (encontros, reuniões… muito cuidado – carreatas, etc.). A mobilização dá vida às campanhas. Energiza os espaços e ambientes. Mas nesse ano, esta área deverá ser reformulada. A articulação com as entidades organizadas e com os candidatos a vereador manterá os exércitos na vanguarda. A comunicação é a moldura da visibilidade. Principalmente em cidades médias e grandes. Sem ideias, programas, projetos, os eleitores rejeitarão a verborragia. E, para mapear as expectativas, anseios e vontade, urge pesquisar o sistema cognitivo do eleitorado.

Ênfases

O planejamento de uma campanha abriga todos os aspectos de uma campanha política, com a inclusão das metas, objetivos, estratégias, táticas, meios e recursos, equipes e estrutura de operação, sistema de marketing, estudo dos adversários etc. O mais importante é o foco sobre os eixos do marketing eleitoral, acima apresentados: a pesquisa, a proposta de discurso (os programas), a comunicação, a articulação e a mobilização. A pesquisa objetiva mapear interesses e expectativas do eleitorado. É vital para estabelecer e/ou ajustar o discurso do candidato. O que e como pensam as classes médias? E as margens como e o que pensam dos candidatos? Sem pesquisa, atira-se no escuro. A pesquisa qualitativa tem a vantagem de descobrir os mapas cognitivos dos eleitores, aquilo que eles estão pensando. É fundamental, na medida em que o mapeamento do sistema de interesses e expectativas do eleitorado deverá ser o centro do discurso. A pesquisa quantitativa, essa será bastante maquiada, servindo apenas para medir intenção de voto, em determinado instante. Na campanha desse ano, o voto decisivo aparecerá apenas no final.

 

 

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