Comportamento

Flexibilização desarticulada da quarentena prejudica mulheres e crianças

Por José de Paiva Rebouças – Agecom (UFRN)
Foto: Cícero Oliveira 
Mesmo com a curva de contaminação da covid-19 ainda crescendo no Brasil, o discurso dos governos é de reabertura gradual das atividades econômicas, como tem ocorrido em muitas cidades. Isso também começou a acontecer com os serviços essenciais, inclusive a educação. Porém, para evitar que as escolas favoreçam a reaceleração do vírus, é prevista a adoção de um modelo híbrido com aulas a distância e revezamento das turmas para reduzir número de alunos por sala. O problema é que, com o retorno do trabalho presencial, muitas crianças não terão com quem ficar em casa ou muitos pais não terão como ir ao trabalho por causa dos filhos.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), resgatados pelo Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19 (Onas-Covid19), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Demografia da UFRN (PPGDem), mostraram que 28,4 milhões de crianças de 5 a 14 anos frequentavam a escola em 2018. No Nordeste, os estudantes nessa idade somavam 8,6 milhões, distribuídos em 6,1 milhões de domicílios.

Em residências em que apenas um dos pais trabalha ou onde moram outros parentes, como avós, tios ou primos, não haverá tanta dificuldade. A situação é mais complicada nos chamados domicílios monoparentais, em que residem apenas a mãe, ou o pai, com os filhos. Nesses arranjos domiciliares moram 14,5% das crianças que frequentam a escola, e as mulheres somam 93%, sendo 63% delas economicamente ativas.

“São 800 mil crianças no Nordeste que estariam em casa sem aula e com suas mães participando de atividades econômicas. Portanto essas mães, quando se verem obrigadas a voltar a sair de casa para trabalhar ou procurar emprego, terão um verdadeiro dilema em suas mãos”, alertam os pesquisadores do Onas-Covid19. Segundo eles, uma solução bastante usual é deixar as crianças aos cuidados de terceiros, geralmente vizinhos ou parentes. No entanto isso aumentará a circulação dessas crianças, o que é prejudicial para o controle do vírus ainda em circulação.

Os pesquisadores da Onas esclarecem também que as escolas desempenham um papel que vai além do processo formativo das crianças, justamente por servirem como importante recurso para as famílias na conciliação das atividades domésticas com as atividades no mercado de trabalho. “Esse recurso é importante, principalmente, para as famílias mais pobres e, mais ainda, para as mulheres, pois não têm como contar com outra forma de cuidado dos filhos para ter ou mesmo para procurar por um emprego. Além de liberar uma parcela do dia, principalmente das mulheres, as mais responsabilizadas pelos cuidados, a presença das crianças na escola significa também, para elas, acesso a refeições”, reforçam.

No artigo publicado no site do Observatório, os pesquisadores esclarecem que esse contexto de dificuldade e vulnerabilidade de mães que criam seus filhos sozinhas não é novo e não foi criado pela pandemia da covid-19, mas reforça a necessidade de uma atenção distinta por parte do Estado. “Os efeitos da impossibilidade de contar com a escola durante a pandemia, como uma forma de apoio institucional às mulheres para o cuidado dos filhos, provavelmente refletirão sobre a participação feminina no mercado de trabalho, seja pela menor disponibilidade de tempo, necessidade de redução das jornadas de trabalho, que levará à redução dos salários, a aceitação de postos de baixa qualidade, pela necessidade de conciliação, e mesmo a saída de empregos”, completam.

Com o título A retomada da economia e a suspensão das atividades escolares: com quem ficam as crianças?, o trabalho da Onas-Covid19 foi publicada no site do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem), no qual estão outros trabalhos dessa natureza. Assinam o artigo Victor Hugo Dias Diógenes, docente do Departamento de Finanças e Contabilidade (DFC) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutorando do PPGDem, e os professores Jordana Cristina de Jesus e Ricardo Ojima, ambos do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do PPGDem.

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