Ação Social

Terapia de dó, ré, mi, fá

Por Williane Silva
Foto: Cícero Oliveira e Anastácia Vaz

A música e a saúde são antigas parceiras da humanidade, visto que um dos registros mais antigos dessa relação é datado de 3 mil anos antes de Cristo, nos papiros de Lahun. Também conhecida como papiros de Kahun, a coleção de escritos de linguagem hierática foi encontrada por Flinders Petrie, em 1889, no Egito.

Além de problemas matemáticos, o material contém observações médicas utilizadas no Antigo Egito para tratar problemas ginecológicos e obstétricos, como métodos de diagnóstico de gravidez, determinação do sexo do bebê, receita de contraceptivo, bem como escritos sobre a influência da música sobre o corpo humano.

De acordo com a publicação La importância de la mujer e la historia de la musicoterapia. Desde la Antigüedade al Barroco, de Ignacio Cale Albert, o papiro mostra como a música foi utilizada para propiciar a fertilidade feminina, descrevendo o rito com uma massagem no ventre da mulher, ao som de um tipo de chocalho, com a invocação da deusa da música e da fertilidade, Hathor.

Ao atrelar o uso do som, ritmo, melodia e harmonia para melhorar a qualidade de vida, nos inserimos no campo da musicoterapia. Para um de seus precursores na América Latina, Rolando Benenzon, a teoria estuda “o complexo som-ser humano-som, para utilizar o movimento, o som e a música, com o objetivo de abrir canais de comunicação com o ser humano, para produzir efeitos terapêuticos, psicoprofiláticos e de reabilitação no mesmo e na sociedade”.

No Brasil, desde 2017, a musicoterapia está presente na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) do Sistema Único de Saúde (SUS). Dessa forma, esse tipo de terapia atua na reabilitação física, mental e social de indivíduos ou grupos, podendo empregar instrumentos musicais, canto e ruídos para tratar pessoas com distúrbios da fala ou da audição, na reabilitação motora, no auxílio a estudantes com dificuldade de aprendizado, na melhoraria da qualidade de vida de idosos e pacientes de doenças crônicas, entre outras diversas aplicações.

Além do propósito terapêutico, a música incentiva aspectos como a independência, criatividade, coletividade e concentração, bem como fomenta o desenvolvimento do gosto estético e da expressão artística. Nessa perspectiva e com foco na educação musical, desde 2011, o programa de extensão Esperança Viva, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN), tem como principal proposta promover inclusão por meio da música.

Sob a coordenação da professora Catarina Shin Lima de Souza, a ideia da ação surgiu ainda em 2007, quando ela foi procurada por uma pessoa com deficiência visual que queria estudar escrita musical, pois um dos requisitos de ingresso na EMUFRN é ser aprovado no teste de habilidade musical. “A UFRN tem uma política de inclusão muito forte, desde 2010, com a criação da Caene (antiga Comissão Permanente de Apoio ao Estudante com Necessidade Educacional Especial, que hoje é a Secretaria de Inclusão e Acessibilidade), mas, se o aluno não conseguir ser aprovado no teste de habilidade musical, ele nunca terá acesso”, relata lembrando que foi a partir desse episódio que começou o curso de flauta doce para pessoas com deficiência visual.

Dessa forma, ao voltar do mestrado, a docente sentiu-se motivada a oferecer um curso de capacitação para a comunidade externa se profissionalizar e enfrentar o teste. Ao mesmo tempo, a iniciativa serviria ainda de campo de estágio para os alunos da graduação, na área do ensino da música para pessoas com deficiência. Foi nesse contexto que nasceu o Esperança Viva, cujo nome foi criado pelos estudantes com deficiência, que se sentiram mais esperançosos e passaram a ter mais visibilidade, enxergando a possibilidade de alcançarem níveis mais altos na música.

Formação musical – Formada por professores, alunos e técnico-administrativos da Escola de Música da UFRN, a ação fomenta a formação instrumental da comunidade interna e externa. Com passar dos anos, o programa foi se expandindo e passou a atender pessoas com deficiência auditiva, autismo, Síndrome de Down e paralisia cerebral, dando origem a diversos projetos como coral, orquestra de violão, musicografia Braille, musicalização up, oficina de capacitação em Libras, banda Braille, entre outros projetos.

Voltado para alunos com autismo, o Som Azul integra o programa e visa a musicalizar a comunidade externa, bem como a capacitar servidores e alunos da UFRN para o atendimento numa perspectiva inclusiva. Desde 2012, o projeto objetiva também ser laboratório de ensino e pesquisa para os diversos profissionais e estudantes de música. Participantes do grupo, Helena Paulo da Silva e Geicia Patrícia dos Santos da Silva são mãe e filha que participam do projeto desde a criação, por meio da Associação de Pais e Amigos dos Autistas do Rio Grande do Norte (APAARN). “Eu não falei para ninguém, mas, mesmo sendo mãe dela, achei que ela [Geicia] não iria se desenvolver e pensava: será que é uma perda de tempo? Mas, me enganei e hoje ela está bem desenvolvida”, Helena conta que suas expectativas foram superadas.

Os artistas favoritos da jovem de 21 anos são Alceu Valença e Tim Maia, repertório que toca na flauta em momentos de lazer e durante o curso na EMUFRN, além de fazer apresentações musicais com os colegas do projeto. Para a mãe de Geicia Patrícia, essa experiência traz benefícios para as duas, proporcionando um momento de diversão e a possibilidade de formação musical. “Para mim foi bom demais, porque é um projeto que eu não pago um centavo. É uma maravilha! E no dia que ela não vem, a reclamação é grande”, considera Helena.

Diante de tantas possibilidades de crescimento do ser humano por meio da música, na opinião da professora Catarina Shin, a música é boa para todas as pessoas porque eleva e acalma, bem como está presente em várias situações, provocando raiva, tristeza, alegria ou melancolia.

“A música faz um bem muito grande para todos, especialmente para pessoas com deficiência. Apesar de o foco não ser terapêutico, pois nossa proposta tem fins de educação musical, a música atinge essas pessoas porque elas superam os limites, se desenvolvem tecnicamente. Se estão aprendendo, estão se sentindo vivas, mais atuantes e pertencentes à Escola de Música e à Universidade”, ressalta.

Com informação da Agecom – UFRN.

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