Comunicação

Hélio Câmara: o som da emoção no rádio esportivo potiguar

O jornalista Itamar Ciríaco, diz em reportagem da Tribuna do Norte publicada neste domingo, que “o som, mais do que a imagem, toca a alma”. Ele fez essa afirmação se referindo ao comunicador Hélio  Câmara. Provavelmente seja a frase mais forte e convidativa para se pensar no que representou e representa o verdadeiro locutor das multidões para os que gostam de comunicação, do futebol, do rádio e da emoção insubstituível da linguagem transmitida pela voz.

Detentor de um talento nato, desses que bancos de faculdades não conseguem dar, Hélio Câmara é o ícone evidente da época de ouro do rádio do Rio Grande do Norte, mas também se posiciona paradigmaticamente como modelo a ser perseguido por todos aqueles que querem e sonham em serem comunicadores sociais e que sabem do peso do som na conquista de mentes e, sobretudo, de corações. Sua força comunicativa, embora vinculada ao rádio esportivo, conseguiu ir mais além e fazer parte do próprio cotidiano de milhares de pessoas espalhadas por Natal e  por  todo o Rio Grande do Norte.

Fundamental para o crescimento do rádio no Rio Grande do Norte, cresceu junto com ele, soube aprender com os profissionais mais experientes e assimilou novos estilos em sua longa jornada à frente do microfone radiofônico, sem, contudo, perder seu próprio estilo.

Em suas passagens exitosas pelos microfones da Rádio Cabugi, Rádio Nordeste, Rádio Poty, Rádio Tropical, Rádio Rural, Rádio Globo e 95 FM, destacamos duas épocas distintas, mas indicadoras de uma capacidade ímpar de superação e de um talento que avança além dos limites impostos pela estrutura disponível, ou pela falta dela.

A primeira passagem que destacamos é a de Hélio Câmara na Rádio Poty, nos anos 70, como o principal narrador da “Equipe da Pesada”. Na época, a difícil tarefa era enfrentar o sempre bem afinado e vitorioso futebol da Rádio Cabugi, da equipe já chamada de “Escrete de Ouro”. Nessa época, Hélio Câmara surgiu como o narrador que acompanha a bola o tempo todo e que consegue situar o ouvinte dentro do gramado. Com seu estilo vibrante, Hélio conseguiu, ao lado de uma bem montada equipe esportiva, colocar a Rádio Poty na disputa acirrada em audiência com a Rádio Cabugi. Dessa época, lembramos a voz de comando de Hélio para o sinal de tempo: “Torcedor lembre-se: a vibração é nossa, a emoção é sua”. Emoção que já era marca registrada em um dos maiores talentos da história do rádio brasileiro.

A outra passagem é a de Hélio Câmara no comando da equipe esportiva da Rádio Rural, isso já em meados nos anos 80, abrindo um novo campo de trabalho, que lançou um dos maiores reporteres esportivos de Natal, Francisco Inácio, e com o desafio de crescer em audiência enfrentando emissoras já tradicionais, com grandes profissionais e bem estruturadas. Tudo isso levando-se ainda em consideração que a Rádio Rural da época não contava com boa estrutura de equipamentos e tinha uma mentalidade majoritariamente amadora. Mesmo assim, Hélio Câmara chamou para si a responsabilidade e, ao lado de profissionais como Eli Moraes, Horácio Pedrosa e José Augusto, conseguiu fazer com que a Rádio Rural tivesse audiência no futebol e fosse acreditada pelo mercado publicitário.

Hélio Câmara foi a voz do futebol durante mais de 44 anos à frente dos principais microfones de Natal e do RN, foi o condutor do torcedor ao estádio e a presença íntima junto a ele nas arquibancadas. Foi também o responsável por levar o estádio, o gramado e o jogo até o torcedor aonde ele estivesse e aonde as ondas do rádio lhe alcançasse. Tudo isso carregado com uma vasta coleção de frases, de uma capacidade ímpar de improvisação, e de muita emoção. O jogo, mesmo que, se assistido pela televisão, fosse considerado de baixa qualidade, ganhava cores novas com a narração do Super Hélio (como era carinhosamente chamado por seus colegas de trabalho), as cores da emoção. Hélio Câmara não fazia um jogo ruim ficar bom, mas sua narração era sempre boa e isso tornava os noventa minutos no rádio bem mais agradáveis que os mesmos noventa minutos nas arquibancadas ou na  frente de uma televisão. O jogo bom, nem se fala, tinha em Hélio o entusiasmo mais que renovado.

Mais tarde, já na Rádio Cabugi/Globo, Hélio Câmara atuou como comentarista e conseguiu transformar o intervalo de jogo como algo sublime a ser acompanhado pelo torcedor ouvinte de futebol. O intervalo fazia com que o torcedor se ligasse para ouvir o comentarista absolutamente opinativo e de palavra fácil dar aula de como deve ser a comunicação. Dividia opiniões, mostava uma paixão pelo seu clube do coração, o América, que só não era maior pela própria paixão que tinha pelo futebol do Rio Grande do Norte.

Hélio Câmara, natural de Rio do Fogo (RN), faleceu aos 78 anos de idade, na madrugada de sábado (19), em Natal, em decorrência de câncer nos ossos.

(Conteúdo do Portal Foco Nordeste)

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