Comunidade de Capoeira sedia projeto que une Educação, Cultura e Saúde

Por Pedro Torres

Distante 65 km de Natal e localizada em Macaíba (RN), a comunidade quilombola de Capoeira dos Negros reúne cerca de 300 famílias que encaram, diariamente, os desafios da distância no acesso aos serviços básicos assegurados à população, especialmente na saúde. Frente às dificuldades encontradas na comunidade, Carolina Damásio, médica preceptora do Instituto Santos Dumont (ISD), observou a necessidade de melhorar a qualidade do pré-natal no quilombo, uma das principais reclamações dos moradores.

Assim nasceu o Projeto Barriguda, desenvolvido por meio da disciplina “Competência Cultural na Atenção à Saúde da Mulher quilombola”, ofertada semestralmente aos alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que também integra o projeto de mestrado em Ensino da Saúde, defendido pela preceptora no dia 25 de maio na própria comunidade.

A defesa foi a primeira fora do ambiente da UFRN e contou com a presença da banca formada por Henry de Holanda, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e George Dantas, diretor da Escola Multicampi de Ciências Médicas do Rio Grande do Norte (EMCM/UFRN). Na ocasião, líderes da comunidade e a população feminina contemplada pelo projeto estiveram presentes, acompanhando o trabalho construído coletivamente com os moradores. A data marcou não somente as comemorações do Dia da África e o cotidiano dos quilombolas; foi especial também para Carolina Damásio, médica infectologista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e, agora, também mestra em Ensino da Saúde, também pela Instituição.

Preceptora do Instituto Santos Dumont (ISD), a médica defendeu sua dissertação com base nos dados obtidos a partir da análise do Projeto Barriguda, que atua desde 2015, na Comunidade de Capoeiras. O local foi reconhecido como Comunidade Remanescente de Quilombo (CRQ) em 2007 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Projeto observou a necessidade de melhorar a qualidade do pré-natal no quilombo

“Eu não tinha a menor ideia do que eu poderia ter aprendido aqui… Educação das Profissões da Saúde e Competência Cultural” foi o título da dissertação desenvolvida na comunidade que abriga 325 famílias, segundo dados obtidos pela UFRN em parceria com o Incra em 2007, por meio do estudo antropológico comandado pela professora Francisca Miller.

“O Projeto Barriguda começou com o objetivo de melhorar a saúde materno-infantil da comunidade”, explica Carolina. “Ouvíamos várias queixas dos moradores dessa comunidade, no Conselho Municipal de Saude, de o quanto é difícil para as gestantes terem acesso ao pré-natal. Como lá não havia uma estratégia de saúde da família permanente, elas estavam tendo que competir por uma ficha para ser atendida”, relata.

As atividades do projeto são desenvolvidas no quilombo por meio da disciplina “Competência Cultural na Atenção à Saúde da Mulher Quilombola”, ofertada pelo Departamento de Tocoginecologia da UFRN junto ao ISD. Semestralmente, são oferecidas dez vagas para estudantes de qualquer curso de graduação da Universidade. Desde que surgiu, em 2015, o componente curricular marcou a grade de 30 alunos, dos cursos de Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, Odontologia, Psicologia e Comunicação Social.

O Instituto Santos Dumont – parceiro da UFRN -, por meio do Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi (CEPS), atua em Macaíba “como serviço de referência para a atenção multidisciplinar à saúde materno-infantil e da pessoa com deficiência”, de acordo com suas missões formadoras.

“O Projeto Barriguda é uma pesquisa-ação, um tipo de pesquisa social que permite que os pesquisadores sejam parte da pesquisa. O produto da pesquisa será o produto da interação do pesquisador com o pesquisado”, explica Reginaldo Freitas, diretor-geral do ISD.

Foi da observação que a competência cultural se adequou ao projeto. Atender às necessidades de uma comunidade afastada geograficamente dos serviços básicos de saúde, com uma abordagem que permitisse estreitar os vínculos para humanizar o cuidado e melhorar a qualidade de vida das mulheres gestantes nortearam desde o início o projeto. “Depois de pedirmos licença para entrar na comunidade, de ouvirmos as maiores necessidades deles, construímos juntos o que seria feito”, relata a médica e pesquisadora.

O projeto foi reconhecido internacionalmente como um dos cinco finalistas do Projects That Works, promovida pela Foundation for Advancement of International Medical Education and Research (Faimer). O reconhecimento veio, também, pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS), por meio do Laboratório de Inovação sobre a Participação Social na Atenção Integral à Saúde das Mulheres, premiação que selecionou seis iniciativas desenvolvidas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

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