Pioneiro estudo randomizado com psicodélico no planeta auxilia no tratamento da depressão

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) existem 300 milhões de pacientes com depressão no mundo; destes, 100 milhões não respondem aos antidepressivos comerciais disponíveis. A situação gera grande desafio para a área médica e pesquisa no campo da saúde no país, haja vista que quatro milhões de pessoas no Brasil estão dentro do último grupo. Porém, um grupo de pesquisadores brasileiros, coordenado pelo Instituto do Cérebro da Universidade Federal do RN, parece ter encontrado um caminho para a solução deste problema.

Intitulado de “Efeitos antidepressivos do psicodélico ayahuasca em depressão resistente a tratamento: um ensaio randomizado com placebo-controlado”, a pesquisa demorou um ano e cinco meses para ser publicada no periódico britânico Psychological Medicine. Com enorme repercussão, o estudo é realizado desde 2011 e consistiu na realização de testes controlados durante sete dias, com 29 pessoas, das quais 21 mulheres e oito homens, entre 19 e 59 anos, que conviviam com a doença há 11 anos, em média. Deste grupo de pacientes com depressão resistente ao tratamento, dois sub-grupos: 14 receberam ayahuasca e 15 receberam placebo. O psicodélico foi enviado à UFRN pela igreja Barquinha, de Ji-Paraná (RO). O placebo foi desenvolvido a partir de componentes que faziam lembrar a cor e o sabor da ayahuasca.

Os testes foram administrados no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), com acompanhamento de dois pesquisadores. Os resultados chamaram atenção e demonstraram persistência na melhora dos participantes que ingeriram a ayahuasca em relação aos que usaram o placebo. “Sete dias após a sessão, o efeito aumentou e 64% dos pacientes responderam à ayahuasca, enquanto 27% responderam ao placebo”, explica Fernanda Palhano-Fontes, primeira autora do estudo.

Os resultados mostraram que o chá provocou diminuição nos sintomas depressivos. A ayahuasca atua sobre áreas do cérebro sensíveis à serotonina, neurotransmissor importante no sistema nervoso central, capaz de inibir reações como ira, agressão, temperatura corporal, humor, sono, vômito e apetite. Neste caso, ao ativar partes do cérebro que respondem à serotonina, o chá provoca uma reação em cadeia que altera a comunicação neuronal e modifica a organização do cérebro.

Embora a pesquisa não permita assegurar que os resultados são permanentes, carecendo de novos estudos, a comparação da ayahuasca com o placebo significou um grande diferencial neste estudo. “Os efeitos foram semelhantes aos que observamos anteriormente no nosso ensaio aberto, em que os pacientes apresentaram melhora já nas primeiras horas após a ingestão da ayahuasca”, confirmou Jaime Hallak, professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do estudo.

Era dos psicodélicos –   Dráulio Araújo, coordenador do laboratório de Neuroimagem Funcional do ICe-UFRN, chama atenção para o novo momento das pesquisas com psicodélicos. Para ele, há uma nova onda a caminho, permitindo que se recupere o tempo perdido em relação aos estudos de seus componentes. “Essas são substâncias poderosas que devem ser tratadas com grande respeito e usadas em ambientes e com intenções apropriados”, enfatiza Araújo.

O Brasil parte na frente deste novo momento, interrompido na década de 1960. Neste período, Timothy Leary, da Universidade Harvard, analisou os efeitos terapêuticos do LSD (Dietilamida do Ácido Lisérgico), mas foi acusado de pouco rigor científico. Mais recentemente, estudos com psilocibina (enteógeno que se popularizou na década de 1960), substância encontrada nos cogumelos, tem mostrado resultados positivos no alívio da ansiedade em pacientes em estágio terminal de câncer.

Nos EUA, estudo com o MDMA, principal componente do ecstasy, já em fase três de testes, mostra resultados no tratamento do transtorno pós-traumático. Em teste realizado com 26 pacientes, foi observada redução de 68% dos sintomas, conforme pesquisa publicada na revista britânica The Lancet Psychiatry.

A ayahuasca é um alucinógeno de uso tradicional que não pode ser patenteado e que começou a ser usado em ambientes religiosos de pequenos centros urbanos brasileiros em 1930, alcançando grandes cidades nos anos 80 e expandindo-se desde então para várias outras partes do mundo. É comumente lembrada por seu uso em comunidades tradicionais indígenas e em rituais como o Santo Daime e União do Vegetal.

O chá é feito a partir da mistura das folhas da Chacrona (Psychotria viridis) e do Cipó-mariri (Banisteriopsis caapi). A Chacrona contém a triptamina psicodélica N, N-DMT (dimetiltriptamina), que se parece bastante com a serotonina, neurotransmissor que parece estar envolvido na depressão, que regula processos emocionais e estados de humor. O Cipó-mariri contém inibidores da monoamina oxidase, potencializando a ação das substâncias contidas na folha, fazendo com que a N, N-DMT se mantenha por mais tempo em circulação no organismo.

Texto: José de Paiva Rebouças – Ascom/ICe-UFRN
Foto: Cícero Oliveira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s